CRÍTICA | A CASA QUE JACK CONSTRUIU

Acompanhando a história de Jack (Matt Dillon), um serial killer que considera seus crimes como verdadeiras “obras primas”, A Casa que Jack Construiu deixa logo de cara que o filme é, de fato, uma obra de Lars von Trier.

Fica evidente que a estrutura narrativa tanto deste filme quanto Ninfomaníaca têm diversos pontos em comum. Um dos principais paralelos entre os dois é a presença de um protagonista compulsivo, que relata suas experiências a um terceiro que, junto ao compulsivo, discutem questões relacionadas ao instinto que existe dentro de cada ser humano. Enquanto em Ninfomaníaca, Joe (Charlotte Gainsbourg) relatava suas experiências sexuais desde sua infância para Seligman (Stellan Skarsgard), neste novo filme, Jack confidencia suas histórias de assassinatos também desde a infância para o poeta Virgílio (Bruno Ganz).

Entretanto, Joe tentava a todo custo mostrar para Seligman que era uma pecadora, já Jack tenta abrir os olhos de seu confidente para o fato de que existe uma linha tênue entre a arte e o ódio. Para convencer Virgílio de suas convicções, Jack narra seus cinco assassinatos de forma que parece que o serial killer trata-se de um guia de um museu, no qual as obras de arte são suas vítimas e seus correspondentes assassinatos.

Em momento algum Jack demonstra sentir raiva de suas vítimas ou mesmo demonstra alguma característica agressiva ou monstruosa, passando-se tranquilamente como um homem qualquer. Seus primeiros crimes aconteceram quase por acidente, entretanto acarretaram em um vício que Jack não conseguia controlar.

As vítimas do assassino eram sempre mulheres e, devido aos seus pensamentos machistas, ele achava que todas elas eram culpadas pelas suas ações. “Você sabe como é difícil ser homem? Já nascer culpado, enquanto as mulheres são tratadas como vítimas?”, diz Jack, em uma cena em que, ironicamente, segurando uma grande faca nas mãos, conversa com uma mulher amordaçada e com marcas de caneta nos locais em que seria cortada. Punindo suas vítimas por características que o próprio julgava imperdoáveis – seja reclamar demais, ser ignorante ou ingênua -, e acreditando ser ajudado por Deus a todo momento, Jack consegue se safar de seus crimes com grande facilidade.

Ao mesmo tempo em que a matança seguia, Jack, engenheiro, tem o desejo de construir sua própria casa – como diz o título do filme. Porém, numa metáfora relacionada à sua obsessão por assassinatos, a casa nunca fica pronta, pois a todo momento Jack precisa dar passos para trás, para que possa recomeçar e seguir em frente, assim como acontece com o ciclo de mortes do criminoso.

Ainda a respeito de metáforas, o filme acerta ao inserir Virgílio na história. Ironicamente, na Divina Comédia, de Dante Alighieri, Verge mostra-se o guia do poeta através do Purgatório e do Inferno, assim como faz com Jack, conduzindo o protagonista pelos círculos do Inferno.

O principal artifício pelo qual o filme acaba conquistando o público não é nem relacionado à violência esperada pelo filme, mas sim ao inesperado humor que envolve a história de Jack. Sua inexperiência em seus primeiros crimes ou até mesmo sua obsessão por limpeza, que faz com que Jack deixe o local do crime impecável antes de fugir, junto a um roteiro certeiro, servem de base para os momentos cômicos do longa.

Um fator que torna a história cômica, ao mesmo tempo que é preocupante, é a facilidade que Jack demonstra ter para tirar a vida de uma pessoa simplesmente porque ninguém ao seu redor se importa. Nem seus vizinhos, nem as famílias, nem mesmo a polícia. Jack, a todo momento, parece desesperadamente pedir para ser capturado, para que a grandiosidade de seus crimes seja reconhecida, entretanto a sociedade parece preocupar-se mais com suas próprias vidas.

Mais uma vez, Lars von Trier usa de artifícios já tradicionais em seu estilo de filme, que transparecem em detalhes como a divisão do longa em capítulos, narração com grandes pitadas de ironia, citação de suas próprias obras e, é claro, a câmera na mão, que, neste caso, enfatiza ainda mais o fator satírico ligado à violência do filme, visto que tais sequências que se revezam entre corpos e rostos, transmite a sensação de que estamos assistindo um mockumentary.

O roteiro pareça cansativo em alguns momentos, principalmente em cenas nas quais temos longos diálogos com grandes citações a renomados artistas e filósofos, que parecem ter como objetivo apenas enaltecer o vasto conhecimento de Lars von Trier. Entretanto, A Casa que Jack Construiu mostra-se um interessante suspense ao retratar a fragilidade e a impotência do homem diante de suas falhas, de seus erros, de seus fracassos. Com isso, o filme, em alguns momentos, transmite a sensação de que von Trier coloca-se como o verdadeiro protagonista do longa, considerando a possibilidade de que Jack e Virgílio tratam-se de representações metafóricas do diretor, servindo como o anjo e o demônio em seus ombros em momentos de crise.

3

Be the first to comment

Leave a Reply

Your email address will not be published.


*